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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Abrigo Lapinha e amigos: Toda uma vida dedicada à escalada. Luis Henrique Cony.

Nessa segunda entrevista da serie "Abrigo Lapinha e Amigos" com muito prazer e orgulho apresentamos a Luis Henrique Cony, uma lenda da escalada gaucha e do montanismo brasileiro. Abriu mais de 100 vias, subiu montanhas de gelo e neve, representou Brasil em campeonatos internacionais, fundou à AGM (Associação Gaucha de Montanhismo). 

Cony é segunda geração escalador, filho do pioneiro da escalada gaucha e brasileira Luiz Gonzaga Cony. Começou escalar ainda criancinha, 43 anos atrás (!), para não parar nunca. É toda uma vida dedicada à escalada e às montanhas. 

 


Cony é um grande escalador que inspira a todos que o conhecem, mas também um pai dedicado, profissional exitoso, pessoa muito amável e sincera, grande amigo. Nessa entrevista ele conta um pouco sobre a sua trajetória na escalada, os amigos, a vida em família e a sua motivação para continuar escalar fortemente depois de te-lo feito durante mais de quatro décadas.
Luis Henrique Cony com a esposa Francisca e os filhos Alice e David
AL: Cony, você tem 43 anos de escalada, é toda uma vida... Lembra como tudo começou?
Os Cony em 1973, o pequeno Luis começou escalar
Cony: Lembro bastante, apesar de ter começado cedo. A memoria traz momentos de quando minha mãe nos levava (eu e meu irmão com 1 ano na época), para acampar e ver nosso pai escalar, no Pico dos Corvos em Gravataí/ RS.  Naquela época, eu com 5 anos (1969), já ficava na base “chorando”para poder subir até o “colo”com eles.  Queria entender, participar, ver o que acontecia “lá em cima”! Depois de muito choro e acampamentos com meu pai, fiz minha primeira subida com corda e depois fui descido por ele por 12 metros até o colo.  Subi a via normal do Pico até o primeiro platô.  Dali em diante, foi só repetir e ir cada vez mais alto. Comecei oficialmente em 1973 e desde então nunca parei.


AL: Você é segunda geração de escalador, um dos poucos no Brasil. Conte-nos um pouco sobre o seu pai e as escaladas da época.
 
Edgar, Gambaro e Cony no Itacolomi, 1952
Cony: Meu pai (Luiz Gonzaga Cony) foi um dos pioneiros da escalada aqui no RS, por volta de 1950 ele e seu amigo Edgar Kittelmann, faziam excursões aos finais de semana para explorar, tirar fotos, etc. Nos anos 1952 até 1960 eles descobriram e conquistaram vários locais aqui no estado, com uso de técnicas e equipamentos precarios (a maioria fabricado por eles- mosquetões, grampos de fenda, nuts e stoppers feitos de madeira, cadeirinhas feito com fitas e cordas, etc.) e, neste período, fundaram o extinto C.E.F. (Clube de excursões Farroupilha) em Porto Alegre. Ali, alguns afins do esporte participaram com eles de suas conquistas. 

Luiz Gonzaga Cony no Pico do Morcego
 O CEF foi substituído por um clube maior, mais organizado, já com um nova geração de escaladores. Foi fundado então o CGM – Clube Gaúcho de Montanhismo, em 10 de maio de 1976, ocasião da conquista do Pico do Morcego, em Bagé. Fui coordenador dos cursos de escalada do clube, tesoureiro, responsável pelo almoxarifado, e por inúmeras conquistas.

Os Cony na comemoração de 25 anos da AGM
A conquista do Pico do Morcego foi um marco das vias tradicionais aqui no RS, tanto que virou o brasão (logo) do clube. Como toda geração traz mudanças no perfil e com os avanços da escalada no mundo, o CGM teve sua jornada encerrada nos anos 1996/1997, iniciando assim um novo período com o auge focado nas escaladas esportivas.  Assim, eu e um grupo de remanescentes do CGM, junto a meu pai e seu Edgar, criamos a AGM – Associação Gaúcha de Montanhismo (04/07/2000). Esta existente até hoje e uma das entidades mais organizadas e fortes do Brasil.

AL: Conte-nos sobre a sua trajetória na escalada.

Cony: Até os anos 1982, participei de muitas escaladas com minha família (meu irmão também escala), mas não havia experimentado a ponta da corda(guiar), por mais que houvesse desejo.  Meu grande parceiro de cordada na época foi o Roberto Cappellari, com quem aprendi muita coisa, entre elas, a superação do medo para ir na frente.

Cony e Rafael Britto na conquista da Viagem Retardada, na Pedra do Segredo
Naquela época as vias eram tradicionais, equipamentos simples e mais pesados (eu usava um cinto de couro dos bombeiros, preso apenas na cintura!). Em 1983, fiz minha primeira via guiando. Foi um feito aquilo pra mim e marcou definitivamente a condição de ser o “Segundo”na corda.  Desta época até 1986, foi um grande avanços técnico e me envolvi profundamente para a escalada. Com o ingresso na faculdade de engenharia, meu tempo pra escalar ficou mais escasso, mas assim mesmo ia todo final de semana, de ônibus ou bicicleta, nos campo-escola próximos de Porto Alegre. 

Do fundo do baú: A Casa do Aventureiro
Em 1986, fui convidado a participar como sócio na abertura de uma loja para vendas e serviços de material esportivo (Casa do Aventureiro) e, neste mesmo ano, fiz a primeira expedição gaúcha à cordilheira dos Andes, na Argentina.  
Subida ao Cerro Pico Franke e Rincón (Argentina), 1986
Subi com o Roberto Cappellari o Cerro Plata (6.300m), marcando assim a primeira das 16 montanhas seguintes acima dos 4000m que faria. 

Como no histórico da escalada em rocha aqui no RS, escalar no gelo/neve não foi diferente. Não tínhamos recursos e equipamentos, então boa parte foi feita por nós mesmos (saco de dormir, calças e casacos impermeáveis, roupas térmicas, picaretas para gelo, etc. Como representante comercial pela loja aqui no RS, muita novidade se trazia de SP e RJ (botas, lanternas, cordas, etc). 

Em 1990, subi o Aconcágua (6960m) e esta ainda é a marca mais alta que estive.  Em 1991, morando em SP, fui convidado a participar da primeira expedição Brasileira ao Monte Everest. Não fui por falta de verbas, entre outros. Mas o sonho permanece….

Nos Pirineos (Espanha). O acesso para a Brecha cruzando o Glaciar.
No Frei (Argentina) com os amigos
Voltando ao Brasil, já escalei os principais locais e conquistei mais de 100 vias, maioria esportiva (minha predileção atual). Meu grau máximo a vista foi um 8b, e grau trabalhado 10a (sem cadena). O grau encadenado mais alto até o momento é 9b, estou trabalhando alguns 9c’s. 

Escalando as paredes francesas
AL: Como você manteve a motivação no alto durante todo este tempo? Tem receita?
Cony: Se motivação tivesse receita, seria um sucesso de vendas.  Como alguns livros de auto ajuda. Mas algumas dicas sempre são boas de lembrar: dormir bem e bastante (cada vez mais difícil), comer de forma saudável e beber muita água. Tenho um orgulho muito grande por ter aprendido a escalada com meu pai e acho que sirvo de modelo para muita gente que me conhece e aprendeu comigo.  Portanto, ai está uma boa motivação.
A condição de buscar sempre mais, de se superar e galgar degrau por degrau me mantém inspirado na escalada.  Não há nada que se compare ao prazer que me dá ao estar no ambiente das montanhas. Me emociona o simples fato de pensar, ver uma imagem ou filme, ou alguém escalando. A escalada me traz paz, inspiração e sou um entusiasta do esporte.  Pretendo seguir por muito tempo ainda…e deixar meu legado para meus filhos(as) e para os que me conhecem.
Na Herois da Resistencia, 9c, Serra do Cipó
AL: Você já achou o equilíbrio entre a família e a escalada? Existe concorrência pelos seus finais de semana?
Comemorando o Dia dos Namorados
Cony: Acho que parte consegui balancear, pois minha família me apoia, me acompanha e até escala junto em alguns momentos.  Acho que contamino eles com meu desejo e necessidade.  Nunca forcei sua participação.  Eles sabem da importância disto pra mim e que ao voltar da escalada estarei melhor, presente e preparado para seguir a vida. Procuro estabelecer uma disciplina de escalada semanal, mensal e anual. Em alguns momentos vou escalar mais outros nem tanto. E tudo bem.



AL: Você considera que hoje está na sua melhor forma?

Cony: Acho que atualmente não estou na minha melhor forma física, mas numa ótima fase mental.  Nos anos de 1989 até 1995, participei de vários campeonatos de escalada (brasileiro, Sul Americano, um Mundial). Naquela época, me sentia forte fisicamente, mas a emoção me dominava, o medo sobrepunha e fazia com que eu não atingisse um melhor desempenho.  Cai algumas vezes por tensão emocional(e era muito frustrante aquilo, raivoso até!). Hoje tenho um melhor controle sobre medos e frustrações, então com isto administro minha performance.  Por escalar em menor quantidade durante a semana, meu rendimento físico caiu, e por estar mais velho também, claro.

Na Gravidade Zero, 9a, Lapa do Seu Antão
AL: Quais são os seus locais de escalada preferidos?

Cony: Já estive em muitos locais de escalada – RS, SC, PR, SP, RJ, MG, BA, CE, PE, GO, Argentina, Chile, Uruguay, Espanha, Inglaterra, Escócia, França. Adoro o Salto Ventoso e a Casa de Pedras aqui no RS.  Gosto das vias de granito do Rio de Janeiro e Nova Friburgo. Mas calcário é a rocha predileta.  Na Europa tem muito e em MG.
Petzl Rock Trip 2012 - La Buitrera, Neuquen (Argentina). Cony e Eduardo Isaia (Bode)
Já faz parte do meu calendário anual ir para Argentina e Minas Gerais todos os anos desde 1986 e 1989, respectivamente.
Escalando na Lapa do Seu Antão

AL: Você frequenta o Abrigo Lapinha desde 2010. O que te faz voltar aqui todos os anos?
Cony: É como umas férias…tranquilidade, paz, muita escalada, fácil acesso, preços acessíveis. Este ano devo ir duas vezes ao Abrigo. Mas não vamos parar por ai. Acho que os aspectos mais fortes são a estrutura que se tem na casa e a proximidade com os setores de escalada. É muito bom, recomendo sempre para todos que ainda não foram.
Uma das frequentes invasões gauchas no Abrigo Lapinha
AL: Uma mensagem para os escaladores do Brasil:

Cony: Que responsabilidade!

Este ano, passei o carnaval na Lapa de Seu Antão (Abrigo Lapinha) e um dia, fui questionado sobre porque estar ali tantas vezes, repetir vias, local, se precisava de segurança ou se queria trabalhar alguma via específica.  Nunca fui muito de viajar para ficar trabalhando lances ou vias duras. Tenho como hábito viajar para escalar e me sentir bem e feliz.  Neste sentido, qualquer escalada é diversão garantida.  Quando fico um tempo maior no local, sempre sai uma cadena mais significativa. Mas estar com amigos da escalada, respirar isto, falar sobre isto, preenche meu espírito. Entre fazer um 10a numa semana ou 45 vias de 6a a 8c, prefiro a segunda alternativa.

Mais uma viagem com amigos, Lapa do Seu Antão
Entusiasmo, Segurança constante e Empatia pelos parceiros de corda e locais, seriam as palavras que mando para quem compartilha de um mundo tão imenso e ao mesmo tempo tão pequeno, ao olhar do que temos em mãos. 

No Pain No Gain!!
Assinando mais um livro de cume

2 comentários:

  1. Muito bacana essa experiencia passada principalmente na parte que ele mostra esta melhor mentalmente de que fisicamente gostei valeu abrigo lapinha.

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  2. Parabéns ao abrigo Lapinha que tive o prazer de conhecer. Além do lugar ser mágico, a receptividade do abrigo é maravilhosa! E parabéns ao Cony por essa história linda de vida e de escalada! Abraço!

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